quarta-feira, 27 de abril de 2022

O CAMINHO DA SERPENTE: INICIAÇÃO NA COVA NEGRA

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A Congregação da Cova Negra é um caminho essencialmente solitário, assim como é a Bruxaria. Porém, é possível abordar essa via de aprendizado através de um formato coventicular, isso é, em grupo, de modo a trazer mais compreensão sobre a jornada mística do praticante. Cada célula de estudo da Cova Negra recebe o nome de Covato, palavra que designa um coletivo ou guilda de coveiros, e cada Covato é gerenciado por um Alcoviteiro, aquele que conhece os mistérios da Congregação da Cova Negra e que, portanto, é capaz de realizar corretamente os ritos do Missal dos Mortos.

Aqueles que desejam e anseiam pela comunidade na congregação, não encontrarão impedimentos para construir essa relação com base nas percepções do caminho dos Mortos. Essa via é sempre aberta para aqueles que portam os sinais enviado em sonhos pela Senhora ou Senhor dos Mortos. Esse sinal, que não deve ser revelado a aqueles que não conhecem a voz da Rainha Cadáver, é o elo que une a todos os que passam pela C.C.N. Numa ligação que vai além de toda e qualquer hierarquia, cada encontro é na verdade um reencontro. Seja como mestre ou aluno, voltamos a Cova para manifestar aquilo que descobrimos do outro lado: os tomos de sabedoria que jazem além de qualquer racionalização humana.

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Quando um buscador recebe em sonhos os sinais e nos comunicamos, uma vez aceito o convite, passaremos por uma longa jornada de aprendizado. Esses conhecimentos que vamos explorar, costumam dar ao buscador a sensação de "já ter vivido aquilo". Essa jornada de relembrar a essência que carregamos faz a semente interior explodir em chamas e se acender com força e vigor no peio do peregrino, dando a ele novamente a consciência do poder luminoso que ele carrega dentro de si. Cada aluno estudará somente com seu mestre, de modo que esse tenha real atenção sobre as necessidades de seu aluno. Uma vez aceito, a jornada procede de tal forma e aspecto:


1. O LUTO: O CASAMENTO DE FOGO E SOMBRAS

Consiste no ato introdutório de dedicação aos espíritos e deuses do caminho da Cova Negra. Esse rito é solitário (mesmo em congregação), e visa atrair e encantar os espíritos de modo que sejam chamados a nossa Arte, criando o elo espiritual necessário para se continuar. O Chamado Casamento de Fogo e Sombras, assim chamado por evocar a fumaça que dá forma aos espíritos, é a primeira de duas etapas. Com este rito forjamos a cama de amor que leva ao assassinato de nosso antigo "eu" para o esplendoroso batismo na Luz Negra da Rainha Cadáver. Essa etapa leva cerca de um mês e meio.


2. O VELÓRIO: A VIGÍLIA DOS MORTOS ANCESTRAIS

Velar significa Vigiar e essa é a segunda parte do ritual do casamento de Fogo e Sombras. Uma vez que o Peregrino tenha feito a correta aplicação do ritual anterior, ele passará pelo período de observação de antes de receber cada ritual seguinte. Através do correto uso desses ritos é concedida uma iniciação secreta através da aplicação do arcano. Essa etapa pode levar até cerca de um ano.


3. O ENTERRO: A PASSAGEM ENTRE A COVA E O ÚTERO

Um ano depois, aqueles que foram escolhidos pelos espíritos do caminho receberão em seus sonhos as mensagens para começar sua jornada apontando os caminhos a seguir depois. O Enterro é essencialmente o ato ritual de cavar um buraco na terra e cobri-lo com terra novamente, com este último ato a Cova então se torna tanto o sepulcro de morte, quanto berço do nascimento. No âmbito conventicular isso é: o buscador passou por todos os ritos centrais da Cova Negra e agora será apresentado diretamente aos espíritos de seu mestre.


4. A EXUMAÇÃO: A REVIVIFICAÇÃO DOS MORTOS

Após a finalização formal do Enterro é feito um este ritual o peregrino passa a ser formalmente um mestre Alcoviteiro, um membro reconhecido e aceito da congregação, capaz de ensinar essa Arte para aqueles que manifestarem os sinais. Neste período buscamos encontrar o Missal dos Mortos, o tomo da Arte Feitiçaria, para que a Gnose de Nosso Senhor Chifrudo e Nossa Rainha da Noite manifestem-se através do praticante - dando luz a nova carne: o relembrar de tudo o que já somos e sabemos na encruzilhada do passado, presente e futuro. Ritos de nascimento e de renascimento são vistos como eventos felizes pelas pessoas em geral, mas tratam-se de verdadeiras tragédias, cheias de dor e lágrimas, desde que renascer é literalmente esquecer, o que mantem a humanidade presa num ciclo sem fim. A Cova busca transcender esse estado de desconhecimento ao aceitar a morta como uma poderosa professora sobre a beleza da vida.

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Nenhuma dessas etapas deve ser uma obrigação ao mestre ou aluno, sendo preferível sempre seguir o que ditam os oráculos dos deuses e espíritos que podem ver além de tudo e o mais interior de todos. A Cova é um espírito e um coletivo de seres, por tanto é esperado que certos caminhos mudem, que certas trilhas se fechem e outras abram. Nossa arte é experimental, ousada e diversa, a cada pessoa que passa pela Congregação, um novo saber surge ou se renova.


Michael Nefer

27/04/2022

terça-feira, 1 de março de 2022

O CHAMADO DE NIKSAH - A ROSA DO DESEJO

Por Michael Nefer

Niksah, ou Qinasa, é reconhecida em nossa congregação como a mais doce e caprichosa das deusas e espíritos de nosso trabalho. Sua forma é a de uma mulher nua sentada em uma janela, atrás dela, chamas se espalham ao redor, revelando relances de um mundo inferior das destrutivas paixões ardentes. Sua tez é pálida como a dos mortos, uma vez que aquele que cai em suas artimanhas vira um morto vivo, servindo somente a sua vontade e designíos mais sombrios. Esse caminho, entre prazer e dor, abre com ela a via da Luxúria, a qual fomos ensinados a desviar uma vez que esse caminho leva a escuridão que há nela, a dor das paixões; no outro lado ela é perpetuadora do prazer, das alegrias, da felicidade e ajuda os que se amam a se unirem. 

Ela é similar em natureza com Libitina, a deusa do prazer e da morte dos antigos romanos, e até com a Afrodite Epitumba dos gregos, que se deitava sobre as covas. Ela é um espirito jovial, malicioso e malandro, mas de bom caráter, que ainda ensinará muito a aqueles que aprenderem a ouvir com atenção suas palavras. 


 O CHAMADO DE NIKSAH

Fazer fumigações com olibano, canela, ládano e mirra.


Três vezes bate o sino para o mistério dela.

(toque o sino três vezes)

Eu chamo teu nome secreto, ó Niksah, chama de todo desejo, dor e paixão,
Nascida das incandescentes brasas do coração daqueles que sofrem!

ERO SAH NIKSAH

És Branca como Lua mais alta, teus lábios são como rubis, teu brilho é puro desejo. Tua fornalha é perfumada com os doces aromas dos filtros de amor, sua pele tem o aroma das rosas e da noite.

Seus olhos são estrelas na noite, insondáveis, lançando sobre nossas almas teu fogo frio, estremecendo em cada veia de nosso corpo, atirando o meu espírito pelos ares, lançado entre mundos incognoscíveis.

ERO SAH NIKSAH

Teu sorriso, é chama mais fria que gela o coração e o faz bater em disparate. Tuas mãos fazem inundar o mundo e me lançam longe na eternidade num único movimento. 

Todo o meu corpo estremece de prazer e desejo, minha alma queima em sua presença. Esvazio meu corpo e mente e caio em seu abismo vazio, onde nada além do desejo existe, só tua gargalhada tempestuosa a nos fazer dançar para sempre em sua espiral de vento e chamas.

EKO EKO KINASAH
EKO EKO NIKSAH



domingo, 1 de março de 2020

ZAMARAK: EXÍLIO, MORTE E VIDA

 Dentro da Arte Feiticeira praticada pela Cova Negra está a prática do chamado e adoçamento dos espíritos, consoante com as linhagens espirituais de bruxaria e curandeirismo que buscamos em nossos trabalhos. A Cova não é um lugar de escuridão eterna, pois apesar de sua estética obscura, esse é um local de renascimento. Aquele ou aquela que busca esse caminho passa ou ainda passará por uma jornada obscura em si mesmo, o trabalho da Cova é superar esses medos e essa estética para de fato encontrar aquilo que a nossa deusa-bruxa cadavérica é: a deusa da vida.


Enquanto alguns grupos preferem percorrer o caminho da vida até a morte, como é a jornada natural, começamos pelo caminho inverso, buscando na morte o respeito, amor e admiração pela obra daquela que é a Vida, que constantemente nos relembra do privilégio que temos ao vivermos e de todas as coisas que temos ainda a viver. Pois como o Espírito da Morte, ela ceifa a vida conforme sua necessidade assim determinar, isto é, com capricho e nenhuma outra vontade que não seja a dela mesma, ela toma aquilo que pertence a ela como num golpe de asas que leva todo o ar embora de nossos pulmões.

quinta-feira, 1 de março de 2018

DIMENSÕES OCULTAS NA NECRÓPOLIS

 A Topografia Oculta do Cemitério

por Michael Nefer


O Reino dos Mortos possui dentro de si um microcosmo com seus próprios pontos de poder, que serão aqui apresentados na forma de locais espirituais. Cada um desses locais e seus caminhos nos levam reinos ocultos de igual poder e maravilhamento para aqueles que se atrevem a buscá-los.


O Portal do Templo Sepulcral


Na topografia oculta do reino dos mortos você se deparará com o primeiro caminho logo ao chegar: a porta de entrada. Toda porta é uma encruzilhada, e certamente a porta de um cemitério é para a bruxa um verdadeiro Portal. É ensinado pelos espíritos do caminho que toda passagem, porta ou portal é guardado por um espírito guardião que pode se manifestar tanto em formas femininas, masculinas, andrógenas, zoomórficas e celestiais.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

EXORDIA


A CONGREGAÇÃO DA COVA NEGRA


Por 

Michael Nefer


     A Arte Mágica das Bruxas, ou simplesmente 'Bruxaria', é uma Arte fluída, presente em milhares de comunidades e culturas humanas. Entendemos que a Arte, em sua diversidade, é capaz de tanto abençoar quanto amaldiçoar aqueles se atrevem a aprendê-la, portanto, buscamos através da interação com os espíritos da Arte o progresso em nossa jornada de mundo a mundo. A Congregação da Cova Negra, escolhida assim para designar um grupo de sombria estética, é um grupo de bruxas e bruxos, que busca Iluminação através da aplicação dos Mistérios da Antiga Fé das Bruxas. 

A Cova Negra é Ossuário dos Deuses Esquecidos, 
é o Túmulo e Portal da Voz Além do Abismo, 
que constantemente sussurra os segredos da Arte 
para aqueles que tem a Semente da Chama Sagrada. 

     A Cova (que vêm do latim e pode designar não só um sepultura, mas também, uma caverna, um buraco na terra) é nossa Rainha e Deusa tutelar, identificada com Libitina, Vênus Sepulcralis, Hecate e Lilith, nossa Rainha é a Senhora dos Mortos e do Templo de Nosso Enterro, bem como é também a Vulva Rúbea de nosso Eterno Retorno.


      A Cova Negra é um caminho que busca  ascensão em todas as formas, igualmente a Cova é sofrimento inevitável, a angústia que assombra o coração dos homens e mulheres comuns. Através da veneração  da essência sombria buscamos aquilo que jaz além das formas que a mente pode racionalizar. A Noite, a Escuridão e as Sombras são assim os veículos pelos quais transcendemos os limites de nossas mentes, enquanto buscamos trabalhar o caminhos de transgressão que vão para além do Belo e do Feio. Como o tempo e a instrução direta dos espíritos, desenvolvemos não somente uma estética sombria, mas uma ligação profunda que tornou claro que a Cova Negra é uma força ativa, onde cada ramo, cada membro, se tornou essencial para a formação de suas raízes. Nossa união profana e herética, gerada no limiar dos mundos, captaram a essência marginal da Noite, e nos tornamos aqueles que devíamos nos tornar.